O VINHO E O ÁLCOOL
Este texto será, provavelmente, um dos mais difíceis e controversos (e também o mais longo editorial) que já escrevi; o oráculo de uma bebida histórica, cultural e social, testemunha da ascensão e queda de impérios, dos ritos profanos e sagrados e de todas as etapas da vida pública e privada, é tão imprevisível quanto o limiar entre os efeitos positivos e negativos do álcool em cada ser humano.
Está bem documentado que o álcool puro, maioritariamente etanol, um dos constituintes do vinho, é uma droga barata. O álcool, no corpo humano, é decomposto através de múltiplos processos metabólicos. A principal via envolve duas enzimas: a álcool desidrogenase (ADH) e a aldeído desidrogenase (ALDH). No fígado, a ADH inicia a degradação ao converter o álcool (etanol) em acetaldeído (CH3CH=O). O acetaldeído é um metabolito intermediário, altamente tóxico e carcinogénico. A enzima ALDH metaboliza depois o acetaldeído num composto inofensivo chamado acetato, que é posteriormente transformado em água e dióxido de carbono. Quando uma pessoa consome bebidas alcoólicas numa velocidade superior à capacidade de processamento da ALDH, a enzima fica saturada. Problemas podem surgir devido a esse excesso de acetaldeído livre que circula pelo organismo, provocando os sintomas agudos da ressaca (dor de cabeça, náuseas, rubor) e os potenciais danos crónicos nos tecidos.
No decurso da minha carreira académica, culminada com um doutoramento em Engenharia Alimentar, experienciei as virtudes e as falhas do método científico: das hipóteses levantadas, da revisão bibliográfica, dos métodos experimentais, da análise de dados, dos resultados e discussão das hipóteses iniciais e de uma conclusão com indicação de perspetivas para futura investigação. […]
Por Aníbal José Coutinho











